Como eu não percebi antes?
- Mosaico Psicologia
- 4 de mar. de 2024
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Como pude não perceber antes que meu cabelo cacheado e minha pele não eram brancos? Como não percebi antes, sabendo que meu avô é negro e que meu pai também possui muitos traços? Mesmo com tudo isso tão evidente, como não percebi antes?
Não percebi antes porque, assim como eu, meus pais também não tinham letramento sobre sua identidade racial; na verdade, ainda não têm. Não percebi porque, ao longo da minha vida, minhas características oscilavam conforme as vivências que eu estava tendo; ir para a praia, por exemplo, me escurecia mais do que uma pessoa branca, mas no dia a dia eu não era tão escura e tinha o cabelo claro. Além do fato de que até aproximadamente os meus sete anos meu cabelo era liso e depois passou a ficar ondulado; aos 10 anos, dei a primeira química no meu cabelo. Somente descobri o meu cabelo cacheado aos 21 anos, quando parei de usar química. Minha avó, inclusive, me pergunta até hoje o que fiz para meu cabelo ficar cacheado.
Não percebi antes porque na sociedade não se entende que pessoas mestiças também fazem parte do grupo de pessoas negras. Não percebi porque existe uma dor intrínseca em ser uma pessoa negra no país em que vivemos.
Não percebi antes porque os negros sempre são os "outros" na maioria das rodas de conversa em que participava, por estar, na maioria das vezes, em um lugar embranquecido. Não percebi antes porque muitas vezes fui desconsiderada como uma mulher negra, tanto estando com pessoas brancas quanto com pessoas negras de pele mais escura.
Muitas foram as razões para eu não ter percebido, na verdade ter admitido, pois tenho memórias da minha infância em que desejei ter a cor da minha mãe. Quando percebi, demorei em admitir, inclusive por ver pessoas questionando o termo "pardo" ou negando sua existência. Entendo que "pardo" faz parte do grupo de negros e que a luta deve ser coletiva.
A dificuldade de admitir para mim mesma e para os outros esse lugar de negritude é composta por vários fatores, alguns não sei se conseguirei acessar um dia de forma consciente, visto que é uma temática complexa, profunda e sempre atravessada por questionamentos e invalidações. O fato de ter demorado para perceber e entender também me afastou de aspectos importantes de mim mesma, envolvendo meu reconhecimento e aceitação de forma integral para ser quem sou de forma autêntica.
Na minha trajetória até aqui, ter começado a participar de grupos que possuem maior consciência sobre as questões raciais no Brasil e ter assim dado início ao meu letramento racial, que sinto ainda estar no início, foi importante para a construção de novos referenciais positivos sobre ser negro, possibilitando o acolhimento e amparo ao reconhecer aspectos da minha própria história que antes eram negados, possibilitando uma maior autoestima sobre quem sou. Dito isso, percebo como a educação deve ser iniciada agora, seja para quem é criança, seja para os adultos, visto que essa mudança precisa começar no momento presente para que de fato as crianças do futuro e a sociedade seja justa e igualitária, gradativamente promovendo uma mudança social que só é possível coletivamente. Como psicóloga, afirmo que não é mais possível fazer uma clínica sem levar em conta, no olhar e na escuta, as questões e desigualdades raciais que existem em nossa sociedade.




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